ESPAÇO ACADÊMICO:


04/09/2008


CORRELAÇÃO ENTRE RESPIRADORES BUCAIS E OCORRÊNCIA DE ALTERAÇ

RESUMO

A mordida aberta anterior e a mordida cruzada posterior são situações comuns na prática odontológica e que na maioria dos casos estão associadas a pacientes respiradores bucais. O objetivo do presente estudo é analisar a possível correlação entre o desenvolvimento dessas alterações dento-esqueléticas nesses pacientes. Para isso, foi realizado uma revisão de literatura na qual os artigos foram coletados no Banco de Teses da USP, Lilacs, Scielo, Med Line (via Bireme), Revista Brasileira de Otorrinolaringologia e Brazilian Dental Journal. Os resultados obtidos foram controversos, uma vez que a presença de mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior foram associadas à diferentes fatores, tais como: traços genéticos, hábitos deletérios e fatores ambientais, como a respiração bucal, associada por muitos à anomalias adenoideanas ou respiratórias como um todo. Conclui-se que a respiração bucal é de fato um agravante no desenvolvimento das alterações dento-esqueléticas, no entanto, não se pode dizer que seja, exclusivamente, o fator etiológico.

Palavras-chave: Respiração bucal, mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior.


ABSTRACT

The anterior open bite and posterior cross bite are commons situations on odontology and most of the time they are related to mouth breathing patients. The aim of this work is to analyze the possible co-relation between the developments of the dento-skeletical alterations on these patients. Thus, it was realize a literature review which articles were collected in the Banco de Teses da USP, Lilacs, Scielo, Med line (via Bireme), Revista Brasileira de Otorrinolaringologia e Brazilian Dental Journal. The results were controversy, once the presence of the anterior open bite and posterior cross bite were associated to different factors, like genetics, non-functional habits and environment influence, as mouth breathing. It flows that mouth breathing in fact, aggravates the development of dento-skeletical alterations, but it doesn’t means that this condition has mouth breathing as etiology.

Key-words: mouth breathing, anterior open bite, posterior cross bite.


INTRODUÇÃO


O desenvolvimento facial mantém íntimo contato com o sistema respiratório e estomatognático, já que a respiração nasal junto com a mastigação e deglutição oferecem um estímulo correto e harmônico para o desenvolvimento e manutenção da saúde das estruturas orofaciais.
No paciente com padrões de normalidade, o selamento labial, o dorso da língua em contato com o palato duro e a base da mesma em contato com o palato mole, associados à respiração nasal, são quesitos imprescindíveis na homeostasia do crescimento craniofacial.
Casos de obstrução nasal congênita, obstrução nasal patológica, obstrução faríngea, e hábitos bucais deletérios, são fatores que desencadeiam uma via alternativa de respiração, denominada respiração bucal. Pacientes que desenvolvem tal hábito apresentam um conjunto de alterações dento-esqueléticas, conhecidas como Síndrome da Obstrução Respiratória.
A respiração bucal, dependendo de sua duração, pode acarretar alterações funcionais, estruturais, patológicas, posturais, oclusais e comportamentais. Essas conseqüências podem levar a danos na qualidade de vida do indivíduo devido ao seu impacto pessoal, físico, psicológico e social.
O perfil característico do respirador bucal inclui alterações da morfologia facial, face longa e estreita, palato alto ou ogival, estreitamento do arco superior com forma de “v”, olhos caídos, lábios entreabertos e ressecados, sendo lábio superior curto e o lábio inferior evertido, interposição lingual, bochecha com a musculatura hipotônica, osso hióide inferiorizado modificando a postura e alteração na morfologia e fonicidade dos órgãos fonoarticulatórios causando distúrbios na fala, e alterações dento-alveolares, relação oclusal com tendência a classe II de Angle, vestíbulo-versão dos incisivos superiores, mordida aberta postural, mordida aberta anterior e mordida cruzada.
O crescimento inadequado do complexo dento-facial é resultado de fatores genéticos e ambientais, portanto, para que se tenha possibilidade de reabilitação e tratamento das formas e funções, é importante a realização de uma terapêutica multidisciplinar, envolvendo cirurgiões-dentistas, médicos, psicólogos e fonoaudiólogos, a qual resgata uma terapêutica integral.
Baseado em uma revisão sistemática da literatura, este trabalho tem por objetivo analisar a existência ou não de correlação entre o desenvolvimento de mordida aberta anterior, condição marcada pela ausência de contatos entre os dentes anteriores, quando os dois arcos maxilares são levados à posição de intercuspidação, e a mordida cruzada posterior, situação em que as cúspides vestibulares dos molares superiores ocluem por dentro das cúspides vestibulares dos respectivos antagonistas inferiores, em pacientes respiradores bucais.


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA


A literatura tem relacionado a obstrução das vias aéreas, a permanência dessa obstrução e o desenvolvimento do complexo craniofacial. Acredita-se que a obstrução prolongada traz como conseqüência o surgimento de um quadro de respiração bucal, conduzindo a uma alteração desfavorável no complexo craniofacial, ocasionando o desenvolvimento de um conjunto de modificações funcionais, dento-alveolares e esqueléticas, apresentando-se clinicamente como mordida aberta postural, arco maxilar estreito, em forma de “V”, palato profundo e maloclusão de Classe II e a presença de mordida cruzada, mordida aberta anterior, interposição lingual.
STRAUB (1944) em estudo com crianças alérgicas constatou que 61% de sua amostra apresentavam constrição do arco maxilar, juntamente com vestíbulo-versão dos incisivos superiores.
EMSLIE et al. (1952) relataram que a respiração bucal provoca alterações do desenvolvimento craniofacial e da oclusão dentária, através da desarmonia das forças musculares da bochecha, lábios e língua.
LINDER-ARONSON & BÄCKSTRÖM (1960) compararam a oclusão dentária de 115 crianças com respiração bucal e nasal, verificando se a criança permanecia de boca aberta ou fechada, respectivamente. Realizaram também um teste de resistência nasal à respiração, que constituiu em registrar simultaneamente o fluxo de ar e o gradiente de pressão entre a nasofaringe e as narinas. As adenóides foram estudadas em telerradiografias de perfil. Nenhuma diferença ocorreu entre o grupo de respiradores nasais e os outros grupos, segundo os seguintes aspectos: sobremordida, inclinação do incisivo superior mais proeminente, largura do arco superior e oclusão lingual dos molares inferiores em relação aos superiores.
SILMAN (1964), em estudo longitudinal dos arcos dentários, utilizou uma amostra de 65 indivíduos leucodermas, acompanhados desde o nascimento até os 25 anos de idade. O estudo concluiu que as alterações nas dimensões de largura posterior foram significantes apenas durante o período do nascimento até os quatro anos de idade.
RICKETS (1968) através da análise da telerradiografia em norma lateral descreveu o conjunto de alterações dento-esqueléticas associadas à respiração bucal: mordida cruzada posterior unilateral ou bilateral; mordida cruzada funcional unilateral, com desvio mandibular, para a mesial de um lado e para a distal do outro; mordida aberta anterior; perímetros dos arcos maxilares diminuídos; possível abertura do ângulo mandibular e condições de pseudoclasse III, em mordidas cruzadas bilaterais, com rotação anterior da mandíbula; estreitamento da cavidade nasal, etc.
LINDER-ARONSON (1970), demonstrou relação estatisticamente significativa entre obstrução das vias aéreas causadas por aumento do tecido adenoideano e certos padrões esquelético-dentais. Essas alterações incluíram rotação mandibular no sentido horário, posicionamento da mandíbula numa posição mais vertical e posterior e mordida aberta.
LINDER-ARONSON (1974) avaliaram crianças respiradoras bucais em período prévio e posterior à cirurgia de adenoidectomia, a fim de constatar as modificações morfológicas dentoalveolares ocorridas após o procedimento cirúrgico (alteração da inclinação dos incisivos superiores e inferiores, e mudança na largura da arcada superior). Os resultados demonstraram que as crianças submetidas à operação tiveram um aumento significantemente maior no ângulo dos incisivos superiores e inferiores, respectivamente, às linhas sela-nasio e mandibular em relação ao grupo controle, assim como aumento significante da largura da arcada superior entre os primeiros molares.
SCHULHOF (1978) demonstrou a importância do exame da via aérea faríngea no diagnóstico ortodôntico. Relatou um caso clínico de um paciente do sexo masculino de 12,5 anos que apresentava fissura palatina submucosa, a qual foi reparada por meio da faringoplastia, resultando na completa obstrução da via aérea respiratória nasal. Após cinco anos, observou-se o desenvolvimento de mordida aberta completa com 6º de abertura do eixo facial. Apontaram a respiração bucal como causa de vários problemas ortodônticos que incluem a maloclusão Classe II, mordida cruzada posterior, posição mais baixa da língua e problemas de crescimento vertical, podendo ser obstáculo para o sucesso do tratamento ortodôntico.
LINDER-ARONSON (1979) avaliou a presença de mordida cruzada ou tendência à mordida cruzada, assim como tendência para mordida aberta, em pacientes com obstrução nasal causada por hipertrofia adenoideana.
HARVOLD (1979) fez um estudo em que um grupo de 10 macacos foram convertidos a respiradores bucais através da obstrução de suas vias aéreas superiores, durante um ano. Todos desenvolveram uma passagem de ar em forma de “v” com a língua que passou a exercer uma pressão tênue e constante nos incisivos mandibulares criando uma mordida cruzada anterior associada à mordida aberta, diagnosticada em todos os casos. Com a remoção da obstrução nasal, os casos de mordida cruzada anterior tenderam a reverter a um quadro oclusal normal.
HARVOLD et al. (1981) testaram hipóteses que relacionam a respiração bucal com possíveis alterações no complexo craniofacial e na dentição. Utilizaram uma amostra com 42 macacos, divididos em 21 pares, de acordo com a idade e com o sexo, mantendo o máximo de similaridade entre os animais. Obstruíram as narinas dos animais do grupo experimental, com tampões de silicone e, em cada um dos 42 animais, implantaram marcadores metálicos na maxila, na mandíbula e no crânio. Realizaram registros a cada três meses, durante o período experimental, e após a remoção dos tampões de silicone. Todos os animais do grupo experimental apresentaram aumento na altura facial, na inclinação do plano mandibular e no ângulo goníaco, porém estas alterações foram mais evidentes no grupo que adotara uma postura mais inferior da mandíbula. Dados eletromiográficos mostraram um aumento no tônus dos músculos pterigóides lateral, medial e temporal anterior, nos animais que mantiveram a boca aberta. Gradativamente, algum tipo de maloclusão se desenvolveu: Classe II, Classe III, mordida cruzada e mordida aberta. Concluíram que as alterações faciais, esqueléticas e dentárias, associadas à respiração bucal, dependerão das adaptações dos músculos a este novo padrão de respiração.
JOSEPH (1982) em revista de literatura aponta a freqüência das mordidas cruzadas e mordidas abertas anteriores, em pacientes com obstrução nasal e que desenvolveram respiração bucal. Ele também cita que a remoção das interferências pode permitir a normalização dos padrões de desenvolvimento do indivíduo.
BRESOLIN (1983) por meio da análise de 45 crianças respiradoras bucais de etiologia alérgica, com suspeita de crescimento facial diferente do padrão normal, observou, entre outras alterações morfológicas, alteração da largura intermolares da maxila, que se apresentava mais estreita e associada com a alta prevalência de mordida cruzada posterior.
MELSEN et al. (1987) estudaram a relação entre o padrão de deglutição, o padrão respiratório e as diferentes maloclusões. Constituíram uma amostra de 824 crianças italianas (424 meninos e 400 meninas) com idades variando de 13 a 14 anos. Determinou-se o padrão respiratório, independentemente, por dois profissionais. Realizaram avaliação da postura labial com as crianças em posição relaxada. Avaliaram os desvios oclusais no sentido horizontal, sagital e transversal, bem como a presença de apinhamentos ou diastemas. A freqüência de respiração nasal foi de 86,6% e da predominantemente bucal de 5,5%, e 7,7%. As crianças respiradoras bucais exibiram maior freqüência de distoclusão, mordida aberta, mordida cruzada e apinhamentos.
BLACKLUND (1988) chegou à conclusão de que há uma significativa correlação entre respiração bucal, a posição da língua e dos lábios. Não encontrou relação alguma entre respiração bucal, adenóides ou altura facial. O autor conclui ainda, que não se pode estabelecer uma relação entre respiração, arco maxilar superior, inclinação dos incisivos e overjet.
Na presença de uma mordida aberta anterior, deve ser avaliado o padrão mastigatório, o selamento labial e o mecanismo de respiração. Quando há presença de uma mordida aberta anterior, a língua é naturalmente posicionada para frente durante a deglutição, para haver o fechamento do espaço e compensar o selamento labial. Combinada com o aumento das tonsilas, a língua é deslocada para fora. Isto irá contribuir para haver uma pressão desnecessária sobre os dentes anteriores superiores e inferiores (BEHFELT et al., 1989).
MOREIRA (1989) avaliou 60 crianças de ambos os sexos, brasileiras, leucodermas, entre quatro e seis anos, sendo 30 portadoras de respiração bucal, e 30 com respiração normal. O autor investigou se na fase da dentição decídua, existe alguma alteração esquelética mensurável, associada à respiração bucal. Concluiu que há diferenças significantes entre a distância dos dois caninos e profundidade do palato entre os grupos avaliados. Não houve diferença significante para distância intermolares em ambos os grupos. Houve correlação entre a distância intermolares e a profundidade do palato para o grupo respirador bucal.
HARVOLD (1968) atribuiu o típico estreitamento do arco palatino e postura de lábios entreabertos, a um desequilíbrio de forças entre a língua e a musculatura perioral e facial. O potencial para a disfunção existe quando o desequilíbrio muscular está presente.
TOURNE (1990) acredita que a respiração bucal é um fator etiológico importante para a “síndrome do respirador bucal”, mas não descarta a idéia de que o componente hereditário é mais importante e que a respiração bucal seria apenas um fator agravante de todo um quadro. O autor refere ainda que não se pode provar uma relação de causa e efeito entre os fatores envolvidos. Pode-se, entretanto, fazer uma associação entre a obstrução nasofaringeana e as modificações esqueletais apresentadas nesses casos.
HULCRANTZ et al. (1991), com uma amostra de 22 crianças portadoras de doenças respiratórias (associadas à obstrução tonsilar) durante o sono, detectou alta prevalência de maloclusões, principalmente relacionadas às mordidas abertas e cruzadas. Dois anos após a tonsilectomia, foi observado que 77% das mordidas abertas e que 50 a 65% das mordidas cruzadas bucais e anteriores foram normalizadas.
CHAMPAGNE (1995) considera a mordida aberta anterior como um dos maiores problemas funcionais, quase sempre, é muito difícil corrigi-la, pois é um problema miofuncional relacionado a distúrbios respiratórios ou de deglutição. O autor também destacou que a postura da língua tem um papel importante na etiologia da mordida aberta. A teoria do equilíbrio sugere que pressões leves são responsáveis pelo movimento e posição dos dentes.
PEDRAZZI (1997) relata que uma mordida aberta com padrão de crescimento no sentido horário, dificilmente tem sua origem relacionada somente ao fator genético, na maioria dos casos, a língua e a postura mandibular são as maiores coadjuvantes.
PEDRAZZI (1997) afirmou que forças mal orientadas e respiração bucal são causas primárias de alguns dos problemas do desenvolvimento esquelético e que juntos manifestam-se como mordida aberta estrutural. A respiração bucal necessita de uma postura lingual baixa na cavidade bucal e uma mandíbula posicionada de forma mais ântero-inferior, para que com isso tenha uma maior passagem de ar. Quando um respirador bucal está mastigando há uma projeção lingual, onde forças são direcionadas contra os dentes anteriores para que se crie um selamento labial durante a deglutição. Há necessidade de uma forma excessiva dos músculos periorais, para o selamento do vestíbulo. A resultante dessa força e da postura lingual afeta o padrão de crescimento esquelético individual.
A direção de crescimento e a configuração esquelética da mandíbula serão influenciadas indiretamente pelos meios respiratórios e diretamente pela posição da língua e postura mandibular.
YAMADA et al. (1997) observaram os efeitos da obstrução respiratória nasal artificialmente induzida no crescimento craniofacial em macacos jovens. Utilizaram 11 animais, sendo sete incluídos no grupo experimental e quatro no grupo controle. Em seguida, dividiram o grupo experimental em dois subgrupos: obstrução leve e obstrução severa. Avaliaram a função nasal respiratória em termos de resistência de fluxo aéreo nasal. Compararam as estruturas craniofaciais dos animais do grupo experimental e controle por meio de análises cefalométricas. Associaram a obstrução respiratória com a rotação mandibular para baixo, crescimento do côndilo para cima e para trás, ângulo goníaco divergente, mordida aberta anterior e presença de diastemas na região ântero-inferior. Estas mudanças apresentaram valores significantemente maiores do grupo experimental com obstrução respiratória severa. Concluíram que a instalação da obstrução nasal antes e durante o período de crescimento da puberdade poderia resultar em deformidades craniofaciais permanente
KATHERINE (1998) sugere que o clínico na avaliação do respirador bucal em exame intra-oral deve esperar encontrar o arco maxilar em “V”, aumento da abóbada palatina e mordida cruzada posterior associada à maloclusão dental Classe II. A etiologia da obstrução nasal causadora da condição deve ser diagnosticada e corrigida, e deste modo a intervenção ortodôntica apropriada pode ser realizada para impedir o crescimento facial vertical, através da expansão maxilar para corrigir a mordida cruzada posterior.
De acordo com GRABBER, RACKOSI E PETROVIC (1999), os fatores epigenéticos e ambientais são de interesse na etiologia da mordida aberta. Fatores epigenéticos incluem postura, morfologia e tamanho da língua; padrão de crescimento esquelético da maxila e mandíbula, particularmente da mandíbula; e relação vertical das bases maxilares. A respiração nasal com distúrbios ou obstrução pode causar uma mudança na postura ou na função, tanto da língua quanto da mandíbula, o que pode levar a uma maloclusão de mordida aberta.
MANGANELLO (2002) realizou uma pesquisa com 30 crianças entre 7 e 10 anos. Essas foram divididas em dois grupos de 15 crianças cada, sendo grupo I respiradores bucais e grupo II respiradores nasais. Foi possível realizar uma comparação entre os grupos I e II, com relação ao padrão de crescimento facial no sentido ântero-posterior e possíveis alterações dento-faciais através dos traçados cefalométricos. Verificou-se que 66,66% das crianças do grupo I apresentavam mordida cruzada posterior, sendo que em 33,33% desse total foi verificada a presença de mordida cruzada posterior bilateral. Mordida aberta anterior esquelética foi encontrada em 40% dos pacientes do grupo I caracterizada, em telerradiografia de perfil, por um aumento da altura facial ântero-inferior, ângulo goníaco obtuso e ramo mandibular encurtado.
LESSA et al. (2005) fez um estudo com 60 crianças de 6 a 10 anos de Ribeirão Preto (USP-FO). Essas crianças foram divididas em dois grupos. Um grupo controle com 30 crianças respiradoras nasais e um grupo experimental com 30 respiradoras bucais cujas vias aéreas estavam obstruídas. Foram avaliadas radiografias cefalométricas laterais de ambos os grupos que comprovaram maior inclinação mandibular (ângulo goníaco obtuso) nos respiradores bucais, seguidos de alterações no crescimento vertical como maior altura facial anterior inferior, ou seja, deslocamento da mandíbula no sentido horário (rotação para baixo e para trás) e menor altura posterior da face.


DISCUSSÃO


Durante muito tempo a respiração bucal foi considerada como uma causa definida de anomalias dento-faciais (MAYORAL & MAYORAL, 1977). No entanto, atualmente, muito se tem questionado sobre a fidedignidade dessa correlação. BRESOLIM et al., (1983); LIMME (1993) e KLUEMPER et al., (1995) relataram ser limitados os dados que confirmam a existência de alterações do padrão dento-facial dos pacientes respiradores bucais e que existem diferenças, de acordo com o tipo de respiração e a idade, na altura facial inferior, na altura total da face, no ângulo goníaco e na posição da mandíbula.
STEELE et al. (1968), SAADIA (1981) e COCCARRO (1987) verificaram correlação entre a alteração do crescimento craniofacial e a respiração bucal. Entretanto, o grande número de fatores etiológicos que são relacionados às anomalias dento-faciais impedem a determinação específica de suas causas, podendo ser genética, ambiental, ou decorrente de alterações anatômicas.
Os dentes, ao erupcionarem do osso alveolar, deslizam-se em forma de arco entre os músculos da língua e dos lábios e bochechas. Durante esse processo, os dentes respondem à forças contínuas e de pouca pressão. Isto é importante para compreendermos a importância dos fatores ambientais. É indiscutível que o primeiro fator etiológico das más oclusões é a genética, porém além das características gerais do esqueleto, há também a influência dos tecidos moles em conseqüência dos fatores ambientais.
Mediante aos dados obtidos em diferentes obras de diversos autores em períodos passados e recentes, observamos que a grande maioria dos pesquisadores corroboram no que diz respeito à influência da respiração bucal no desenvolvimento de má-oclusões, dentre elas, mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior.
A mordida aberta anterior seria predominantemente associada ao desenvolvimento alternativo da respiração nasal comprometida por anormalidades adenoideanas anatômicas ou adquiridas; podendo também decorrer de hábitos como sucção digital ou de chupeta, ou mesmo interposição lingual. Em razão de existirem mais fatores, além da respiração bucal associados à mordida aberta anterior, sugere-se que a etiologia da alteração dento-esquelética mencionada esteja interligada a um complexo mosaico, pelo qual a influência ambiental, fatores genéticos, anomalias respiratórias, hábitos deletérios e também às má-oclusões fluem sincronicamente de modo a dificultar uma precisa associação entre algum destes fatores como causa estabelecida da mordida aberta anterior.
O mesmo conflito pode ser notado quando se tenta explicar a respiração bucal como fator causal de mordida cruzada posterior. Acredita-se que fatores epigenéticos, dentre eles posição adotada pela língua em pacientes respiradores bucais, favoreça o desenvolvimento do cruzamento posterior entre as arcadas. Quando a língua repousa no soalho bucal com a finalidade de favorecer o ato respiratório pela desobstrução da orofaringe, os dentes postero-superiores perdem a homeostasia de posição e por ausência de força capaz de antagonizar àquela provocada pelos lábios e bochechas, terminam por lingualizarem-se, ocasionando a denominada mordida cruzada posterior.
Em relação às dimensões da arcada superior das crianças avaliadas no estudo de MATTAR (2002), evidencia-se uma menor distância inter-molares dos respiradores bucais, quando comparadas aos respiradores nasais, indicando maior estreitamento de arco maxilar na região entre os segundos molares decíduos. Estes resultados estão consistentes com os obtidos por RICKETTS (1968), LINDER-ARONSON (1970), PAUL & NANDA (1973), LINDER-ARONSON (1979) BRESOLIN et al. (1983, 1984), PROFFIT (1993) e MOCELLIN et al. (1994). Após um ano da adenoidectomia, através de um segundo exame clínico, crianças maiores que nove anos de idade apresentaram significante aumento da largura do arco maxilar superior, entre os primeiros molares. Já os autores MOREIRA (1988, 1989) e HARVOLD et al. (1973) obtiveram resultados divergentes em estudos feitos em animais, onde a distância inter-caninos foi acentuadamente menor.
LINDER-ARONSON (1970) demonstrou estatisticamente que a mordida aberta anterior era decorrente da respiração bucal. Já SCHUEHOJ (1978); BRESOLIN (1983), BEHLFELT et al. (1990) e KATHERINE (1998) provaram em seus estudos que a mordida cruzada era alteração dento-esquelética amplamente associada aos respiradores bucais.
Ricketts (1968), Schulhof (1978), Katherine (1998) demonstram que respiração bucal está interligada à maloclusões de classe II de Angle, mordida cruzada posterior, posição lingual anômala ocasionando palato profundo e interposição lingual.
A grande maioria dos autores, RICKETS (1968), DIAMOND (1980), HARVOLD et al. (1981), JOSEPH (1982), MELSEN et al. (1987) e HULCRANTZ et al. (1991) em seus estudos, sejam eles longitudinais ou transversais, dotados ou não (no caso das revisões literárias) de amostras populacionais, concordaram no tocante à real influência da respiração bucal na etiologia das alterações dento-esqueléticas abordadas no presente estudo: mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior.
Contrariando a associação acima descrita, a qual o esclarecimento constitui a alvo de nossas pesquisas, LINDER-ARONSON & BÄCKSTRÖM (1960), também fundamentado em pesquisas, afirmaram não haver dados significativamente relevantes que permitam estabelecer de forma clara e definitiva a natureza da presente correlação.
BLACKLUND (1988) foi além e concluiu não haver associação entre adenóides e respiração bucal, colocando em questão um aspecto que até então era consenso na literatura.
O conflito mencionado, bem como os diferentes resultados obtidos pelos autores e obras discordantes, pode ser justificado pela natureza da amostra, isto é, número de voluntários submetidos ao teste, gênero, faixa etária e grupo étnico a que pertenciam, bem como local em que residiam e nível sócio-econômico que possuíam.
Quanto ao número de pacientes incluídos na amostra, quanto maior o for, maior a fidedignidade dos resultados obtidos, o que não significa que as amostras modestas não fornecem veracidade nas informações prestadas.
Outro fator extremamente relevante na justificativa das diferentes conclusões obtidas foi a faixa etária utilizada nas amostras, visto que, segundo AHLQVIS-RASTAD (1998), crianças na fase puberal em média aos 10 anos, passam por um surto de crescimento vertical da face capaz de mascarar os resultados.


CONCLUSÃO


Através da revisão literária realizada, conclui-se que a relação entre respiração bucal e o desenvolvimento das maloclusões mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior é imprecisa. Ora a respiração bucal é considerada um fator etiológico, ora um fator agravante de várias alterações do crescimento e desenvolvimento das estruturas dento-esqueléticas.
Apesar das evidências que o impedimento da respiração nasal causa respiração bucal, os efeitos desta sobre o desenvolvimento crânio-facial continuam controversos.
O comprometimento das vias respiratórias superiores acarreta respiração bucal crônica. Não existe um tipo específico de alteração dento-esquelética diretamente relacionada à respiração bucal. Pode-se, porém, afirmar que esta leva a alterações posturais da língua e da mandíbula, causando efeitos indesejáveis sobre o crescimento facial.
Conclui-se ser contraditória a relação entre respiração bucal e alterações dento-esqueléticas. Portanto, a correção da obstrução nasal deve ser tentada com o objetivo de estabelecer uma via respiratória permeável e reduzir possibilidades de deformidades.






































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*Cícero Ferreira MAIA
*Fernando Goulart CRUZ
*Francielle Silvestre VERNER
*Guilherme Thomas de ASSIS
*Leidiane Pereira LOPES
*Paula Carolina de Souza CHANDRETTI
*Karina Lopes DEVITO - Professora de Radiologia do Curso de Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora



















 
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